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Histórias de História

Bem-vindo(a) Este espaço foi criado em 2017 e tem por objectivo de transmitir um pouco de tudo, que o publico desconhece ou nunca ouviu falar. Contudo a história por si é feita de pequenas e grandes histórias, desde factos banais a acontecimentos

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Há cem anos que vamos a banhos

Lugar temido antes de ser terapêutico. Lugar deserto antes da moda dos banhos. Eis a praia ao longo do tempo

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Ir para a praia nas horas mais quentes. Ficar na praia. Deleitar-se no contacto com a areia, a água e o sol. Há cem anos tudo isto seria considerado excentricidade em Portugal. O conceito de praia como local de diversão é relativamente recente. Data de meados do século XX. Os banhos de mar foram, antes de mais, terapêuticos. E mesmo esta moda é coisa moderna, posterior à Revolução Industrial. No passado mais remoto – até ao 'despertar do desejo colectivo de praia', como lhe chama a historiadora e mestre em História Contemporânea Joana Gaspar Freitas – manteve-se a tradição de repulsa pela beira-mar, alimentada pelos perigos, reais ou fantasiosos, do oceano. Ultrapassados esses receios do desconhecido e, mais tarde, já no século XX, com a promoção do turismo de massas, não restam dúvidas: o fenómeno social da praia transformou completamente o litoral e, em alguns casos, significou a ruína da paisagem e do equilíbrio natural. Homem da faina, o pai de Lurdes Batalha, de 67 anos, varina da Nazaré, morreu num naufrágio, após ter sobrevivido a uma trintena deles. Lurdes, que ficou sem o pai aos nove anos, tem memória da praia da Nazaré há muitas décadas e lembra-se do que ouviu contar sobre os hábitos de quem a frequentava no início do século – 'as famílias finas que traziam as criadas e ficavam os meses de Julho e Agosto.' Na Figueira da Foz, as mulheres tomavam banho vestidas, comenta Manuel da Cruz Silva, de 83 anos, engenheiro reformado. Na Praia da Rocha, António Duarte, comerciante, diz que os homens levavam uma camiseta para velar o peito. Em Sines, a avó de Francisco Lobo Vasconcelos, arquitecto, contou-lhe que 'a praia era importante por uma questão de saúde'. E não mentiu. Os banhos de mar por indicação terapêutica surgiram no final do século XVIII na Inglaterra e na França. Em Portugal tornaram-se vulgares entre os grupos sociais mais elevados a partir da segunda metade do século XIX. Eram recomendados para vários tipos de doenças, entre as quais a anemia, raquitismo infantil e depressão. Na Nazaré, para maleitas dos ouvidos 'eram cinco banhos diários', lembra-se Lurdes Batalha de ouvir dizer aos mais velhos. Os banhos eram administrados como se de medicamentos se tratasse. Segundo a historiadora Joana Gaspar Freitas, havia 'um rigoroso código de conduta a ser seguido por quem procurava nas praias a cura para os seus males'. Definia-se não só a época mais indicada para banhar-se, como a duração da estada balnear, o número de imersões e a duração das mesmas, sem descurar o vestuário adequado para entrar no mar. Praias indicadas, por exemplo, para o tratamento da tuberculose pulmonar eram as que ficavam entre Buarcos e S. Martinho do Porto e as do Cabo da Roca, Sines e Albufeira. Joana Gaspar Freitas nota que 'a Imprensa do século XIX contribuiu de forma decisiva para a difusão da praia, pelo destaque que deu à estada das elites no Litoral, narrando as festas e a diversão que envolvia a temporada de banhos'. O desejo de imitar a aristocracia, associado à melhoria das condições de vida, ao desenvolvimento dos transportes e à instituição do dia de descanso semanal conduziu à massificação da praia, sem que tal, como explica a historiadora, tivesse significado de imediato mistura de classes. Diferentes grupos sociais usavam diferentes trechos da costa ou frequentavam-nos em alturas diferentes do dia. Na Figueira da Foz, as senhoras tomavam banho ao meio-dia e o povo ia de manhã cedo. Na segunda metade do século XIX, a regra era ‘a cada um a sua praia’. Póvoa de Varzim, Espinho e Figueira da Foz eram praias mais cosmopolitas, abertas a banhistas de todas as regiões e até de Espanha. Leça era a praia preferida da colónia inglesa do Porto e Pedrouços a eleita da burocracia lisboeta. Outras eram apanágio de famílias da aristocracia, como acontecia em Vila do Conde, Granja e Cascais, onde, a partir de certa altura, também a família real passou a marcar presença. 'A posterior instalação da corte em Cascais durante o Verão pode ser considerada como o movimento percursor da moda do banho em Portugal', considera a historiadora. Em Cascais, já nos anos 40 do século XX, o pai de Severino Ribeiro, que foi o primeiro concessionário da praia da Azarujinha, era cumprimentado pelo Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, que, no Verão, se mudava para o Forte de Santo António, no Estoril – onde, em 1968, viria a cair da cadeira –, pagando a estada do seu bolso ao Instituto de Odivelas, ao qual o forte estava confiado. Salazar perguntava pelo miúdo a João Severino e dizia-lhe que o mandasse almoçar no forte com as alunas do instituto.

 

MUDANÇA

 

 'No início do século XIX existiam longas extensões do litoral praticamente desertas ou povoadas apenas por pequenas comunidades piscatórias, cujos aglomerados eram constituídos por algumas cabanas feitas de materiais precários.' Logo que chegaram os primeiros banhistas foi preciso construir casas, pensões e hotéis para alojá-los, bem como cafés, casinos – em Cascais havia um à beira-mar – e lojas para entretê-los. Resultado: zonas até então desertas ou pequenas povoações de pescadores cresceram rapidamente de olho na oportunidade de negócio Segundo a historiadora, 'várias vilas e cidades do nosso litoral são o produto do despontar do desejo colectivo da praia. É o caso de Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Espinho, Nazaré, Figueira da Foz, Ericeira e Cascais, as mais antigas, e já no século XX, Vila Nova de Milfontes, Praia da Rocha, Quarteira, Albufeira e Monte Gordo.' No início do século XIX, a povoação de Espinho tinha 'pouco mais do que alguns palheiros de pescadoras e duas ou três casas de pedra e cal'. Quando foi construído o caminho-de-ferro tudo mudou – em 1918 contava já com vários edifícios elegantes, hotéis, teatros, casinos e cafés. O crescimento urbano que se registou ao longo da costa portuguesa ainda no século XIX intensificou-se no século XX com o turismo de massas e tomou 'proporções desmedidas nas últimas décadas'. O que esta apetência sem regras significou para a orla costeira está à vista. 'A conversão do litoral num local apetecível e muito procurado implicou a sua transformação –o aumento significativo da área e do volume das construções, o aparecimento de avenidas marginais e paredões longitudinais, a edificação de casas o mais próximo possível do mar, tantas vezes em cima de dunas e arribas.' Os sistemas costeiros baseiam-se em equilíbrios precários que o fenómeno social da praia destruiu, como aconteceu em algumas zonas do Algarve, ou ameaça – caso do Sudoeste Alentejano. Esta pressão é uma das causas da erosão costeira a que assistimos actualmente. 'A construção de molhes, esporões, paredões e outras estruturas de engenharia pesada mais não são do que tentativas, infrutíferas, para tentar fixar um sistema natural que se caracteriza pela sua dinâmica', considera Joana Gaspar Freitas. O areal de Espinho, que António Gaio, de 83 anos, diz ter sido o dobro na década de 30, não é caso singular na costa portuguesa. Os donos dos bares da Costa de Caparica têm visto o mar entrar-lhes pela porta adentro com regularidade, clamando então pela reposição artificial de areia. 'Quase 70 por cento da costa portuguesa está em risco de perder terreno.' O alerta é repetido pelo físico e professor catedrático Filipe Duarte Santos, que é também o maior especialista nacional em cenários, impactos e medidas para lidar com as alterações climáticas em Portugal. 'O dobro', diz António Gaio, sem avançar uma medida concreta. Os especialistas concluíram entretanto que, nos últimos anos, a taxa de recuo da costa tem variado entre 20 centímetros e nove metros. A zona de maior risco foi identificada entre a Foz do Douro e a Nazaré. A praia do Furadouro, em Aveiro, recua, em média, nove metros por ano. Na segunda metade do século XIX era frequentada principalmente pela gente das regiões e localidades próximas. Era uma praia modesta – nada como a Apúlia ou o Baleal, reservadas a famílias selectas. Na segunda metade do século XXI, a praia do Furadouro arrisca-se a desaparecer do mapa. Não será a única caso as previsões de subida da água do mar até um metro ou um metro e meio se concretizem. Praias pequenas, rodeadas de arribas, arriscam o mesmo destino. Os fenómenos de erosão associados à subida do nível do mar que se prevê resultar do processo de mudança climática ameaçam devolver o Litoral à categoria do território inóspito e perigoso que era a sua antes da moda dos banhos terapêuticos. 'É preciso lembrar que, durante muito tempo, o litoral não era acessível à maioria da população por falta de estradas e transportes', afirma a historiadora Joana Gaspar Freitas. Para os pescadores era espaço de sustento. Para o Estado era fonte de receitas, pela cobrança de taxas alfandegárias, e de ameaças externas, por via da pirataria ou de invasões estrangeiras. E para o público em geral era um local desprezado, pouco conhecido e evitado.

 

'PRAIA PARA O MEU AVÔ ERA TRABALHAR'

 

 Enterrar os pés na areia ou olhar o mar era, para Manuel Álvares Tiago, sinónimo de trabalho. O guarda fiscal instalou-se 'muito novo' em Peniche – zona balnear muito procurada desde o início do século passado – e os seus dias eram passados de olhos postos na praia, à procura de contrabandistas ou de barcos encalhados. 'O meu avô adorava o mar, nunca tirava de lá os olhos, mas no seu tempo de descanso não gostava de ir para a praia, entendia isso como trabalho', conta o neto, Carlos Tiago, de 66 anos.

 

'O MEU PAI PESCAVA NO MAGOITO'

 

 O pai, militar, levava-o à pesca na praia do Magoito, Sintra. Rogério Miranda nasceu há 60 anos em Lameiras, ali ao pé, mas desde cedo se encantou pelo Magoito e pelas histórias de viscondes, como o da Asseca, que caçavam na região e erguiam casas diante do mar bravio. No tempo em que a derrocada da duna fóssil ainda não tinha começado.

 

 'AS MULHERES IAM AO BANHO VESTIDAS'

 

Hoje Manuel da Cruz Silva, 83 anos, prefere as águas mais quentes e está de partida para a Tunísia, mas lembra-se bem 'de picar carreiros', modalidade a que 'chamam fazer surf', no mar da Figueira da Foz. 'A praia era maior e poucas pessoas iam. Os homens só vestiam o fato de banho na praia, dentro dos barcos, as mulheres iam vestidas e assim ficavam mesmo se tomavam banho', recorda o engenheiro reformado.

 

 

'IA ALMOÇAR AO FORTE SALAZAR'

 

'Só o frete de ter de me vestir...' Severino Ribeiro não podia apresentar--se de calção no ‘forte Salazar’, como era conhecido o forte de Santo António, no Estoril, onde o ditador passava as férias. Tinha de pôr bibe, gorro e calçar as alpercatas. D. Maria, a governanta, servia-lhe o almoço, tal como às alunas do Instituto de Odivelas. Severino cresceu, deixou de ser convidado para o forte. Tornou-se banheiro da praia da Azarujinha, em Cascais. Ao serviço da elite.

 

 

 “SINES ERA QUESTÃO DE SAÚDE”

 

 Francisco Lobo Vasconcelos recorre às memórias da avó para descrever a praia Vasco da Gama há cem anos. “As pessoas mudavam-se de armas e bagagens durante quatro meses para Sines”, recorda o arquitecto, natural de Santiago do Cacém. “Usavam-se fatos de banho que pareciam vestidos e ia-se para a praia por volta das sete da manhã. Havia um banheiro que dava a mão às meninas que voltavam encharcadas. Iam para as barracas onde estavam jarros com água doce para retirar o sal.” O resto do dia passava-se entre piqueniques, burricadas e bailes à noite, em redor da praia. “Tudo se passava bem cedo e a praia era importante por uma questão de saúde.

 

 

'AS CRIANÇAS TINHAM MEDO DAS ONDAS'

 

Lurdes, 67 anos, conta que o pai, Joaquim Batalha, morreu no trigésimo naufrágio em que esteve envolvido. 'Só viradelas de mar teve 22 e uma vez o mar estava tão bravo que foi ter à Ericeira'. Quando não se fazia ao mar, o pescador ia ajudar o filho mais velho, o banheiro António, na praia. 'As crianças tinham medo das ondas, mas os pais insistiam com os banheiros que às vezes tinham de lhes dar vários banhos seguidos' para curar as maleitas.

 

 'AREAL DE ESPINHO ERA O DOBRO'

 

'O areal era o dobro e havia a tradição das barracas.' É assim que António Gaio, 83 anos, lembra a praia de Espinho no início do século XX. O pai contava-lhe sobre as festas de Santiago e a colónia espanhola que agitava o areal. 'E a elite vinha à procura dos efeitos terapêuticos do mar. Estiveram cá o Guerra Junqueiro e o Amadeu Souza-Cardoso', conta o director do festival

 

 CINANIMA 'SÓ ALGUNS VINHAM A SESIMBRA'

 

Francisco Silva tem 84 anos e é natural de Sesimbra, tal como os pais e os avós. Lembra-se da vila ser, na década de 30 do século passado, muito menos concorrida do que agora. Então, só 'alguns senhores do Alentejo' vinham passar as férias com a família. As sopeiras eram disputadas pelos sesimbrenses nas noites de sábado, quando as criadas tinham folga. 'Mas a mim nunca me calhou nenhuma', diz sorridente.

 

'VENDIAM-SE OS BOLOS CAPARICANOS'

 

Alberto e Ana Maria Cambalacho, 59 e 58 anos, relembram as histórias do tempo em que a classe média lisboeta começou a ir passar férias à Costa. 'Chegavam e arrendavam as casas melhores e as famílias mudavam-se para um anexo'. Foi a partir de 1925 que a praia começou a ser mais concorrida. No areal 'vendiam-se bilhas de água forradas com folhas de cana e um bolo especial: os caparicanos'.

 

 'OS HOMENS USAVAM CAMISETA'

 

António Duarte, o ‘Bonezinho’, leva 61 anos de trabalho na Praia da Rocha, em Portimão. Começou com 12 anos, a ajudar o pai no negócio do aluguer de toldos, e, aos 16, continuou como banheiro. Está à frente do restaurante que a família abriu na areia em 1964. Lembra-se do tempo em que o biquini era proibido. 'Os fatos de banho eram com perna e os homens tinham de usar uma camiseta para não mostrar o peito'

 

. 'TURISMO FOI BALDE DE ÁGUA FRIA NO MAR'

 

 'Leve sentido'. É palavra de pescadores. 'O turismo foi um balde de água fria no mar'. 'O turismo mudou Alvor, mas para nós não mudou nada'. Quem o diz é António Jacques e Aquilino Jacques, irmãos de 70 e 65 anos, respectivamente. Já o pai era pescador quando Alvor era pouco mais do que uma pequena localidade virada para a ria e para a pesca. Os prédios e o turismo só haviam de chegar na década de 1970. António Duarte, o ‘Bonezinho’, leva 61 anos de trabalho na Praia da Rocha, em Portimão. Começou com 12 anos, a ajudar o pai no negócio do aluguer de toldos, e, aos 16, continuou como banheiro. Está à frente do restaurante que a família abriu na areia em 1964. Lembra-se do tempo em que o biquini era proibido. 'Os fatos de banho eram com perna e os homens tinham de usar uma camiseta para não mostrar o peito'.

 

'TURISMO FOI BALDE DE ÁGUA FRIA NO MAR'

 

'Leve sentido'. É palavra de pescadores. 'O turismo foi um balde de água fria no mar'. 'O turismo mudou Alvor, mas para nós não mudou nada'. Quem o diz é António Jacques e Aquilino Jacques, irmãos de 70 e 65 anos, respectivamente. Já o pai era pescador quando Alvor era pouco mais do que uma pequena localidade virada para a ria e para a pesca. Os prédios e o turismo só haviam de chegar na década de 1970. António Duarte, o ‘Bonezinho’, leva 61 anos de trabalho na Praia da Rocha, em Portimão. Começou com 12 anos, a ajudar o pai no negócio do aluguer de toldos, e, aos 16, continuou como banheiro. Está à frente do restaurante que a família abriu na areia em 1964. Lembra-se do tempo em que o biquini era proibido. 'Os fatos de banho eram com perna e os homens tinham de usar uma camiseta para não mostrar o peito'.

 

 

 

 

 

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