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Histórias de História

Bem-vindo(a) Este espaço foi criado em 2017 e tem por objectivo de transmitir um pouco de tudo, que o publico desconhece ou nunca ouviu falar. Contudo a história por si é feita de pequenas e grandes histórias, desde factos banais a acontecimentos

Histórias de História

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Os primeiros dias dos portugueses na praia

As primeiras aventuras balneares em Portugal incluíram dramas, medo, recomendações médicas, fatos-de-banho pudicos e flirts com espanholas

 

A praia começou por ser um drama. O escritor Gervásio Lobato, tio tetravô do humorista Nuno Markl, não conseguiu esquecer os dias negros que viveu aos 5 anos, em Setembro de 1855, quando a família o arrastava para o areal que então existia em frente à Torre de Belém, em Lisboa. "Eu tremia como varas verdes, chorava, gritava, rebolava-me pela areia, fingia doenças, mas era tudo em vão. Vinha o Roque, um banheiro muito alto, muito forte, muito vermelho de cabelos ruivos, pegava em mim e zás! Água te valha. Lembro-me ainda desse tempo com terror. O mês de Setembro era para mim um mês de suplício. Não tinha um minuto de felicidade nos 43.200 minutos desse negregado mês", escreveu na Ilustração Portuguesa em 1885, numa crónica citada por Maria Graça Briz na sua tese de doutoramento, A Vilegiatura Balnear Marítima em Portugal, 1870-1970.

Copiou-se assim um hábito iniciado em Inglaterra e em França a meio do século XVIII. Ao longo de praticamente todo o século XIX, e até aos loucos anos 1920 – quando começou a moda de apanhar sol para bronzear a pele –, ia-se à praia apenas para tomar banhos de mar, com o objectivo de curar doenças como a anemia, a depressão e o raquitismo infantil. Funcionava como se fosse uma receita: os médicos definiam a duração da estadia junto ao mar e chegavam nalguns casos ao extremo de indicar o número de mergulhos por cada banho, consoante a idade, o sexo e as condições do doente – mulheres e crianças em Julho e Agosto, para não se sujeitarem a um estímulo tão forte; homens saudáveis no tempo mais frio para robustecer o organismo.

Chegava-se à praia pelas 8h. Os homens levavam fato e gravata e as mulheres vestido comprido. Dentro de uma "barraca de banhos", com a ajuda do banheiro e da sua família, os cavalheiros vestiam uma camisola e calções de lã; as senhoras um vestido de cauda que tinham de arrastar pela areia até ao mar e depois no penoso regresso à barraca. Não se ficava de fato-de-banho fora do mar nem se apanhavam banhos de sol.

A receita do médico era entregue ao banheiro, que conduzia os banhistas mar adentro e os ajudava em várias modalidades possíveis de banho. Podia segurar as pessoas com uma corda; puxá-las pelo braço para as obrigar a mergulhar quando vinham as ondas; despejar água em cima dos banhistas com ajuda de uma gamela; e, mais radical, o banho de "choque", assim descrito numa investigação de Luís Paula Saldanha Martins: "Os banhistas eram transportados em cadeirinha por dois banheiros que, de forma concertada, quando as ‘vítimas’ menos esperavam, os mergulhavam e devolviam ao areal com prontidão."

Não ia toda a gente ao mesmo tempo, nem o banheiro teria capacidade para isso. Algumas pessoas passeavam à beira-mar ou ficavam a aguardar a vez sentadas em bancos de madeira junto às barracas, enquanto assistiam aos banhos dos outros. "Antes de entrar na água era conveniente um pequeno passeio para que o corpo ganhasse algum calor, de forma a aumentar a impressão causada pela água fria. Pela mesma razão, a imersão tinha de ser rápida e total. O banhista tinha de dar vários mergulhos e não podia manter-se quieto, devendo debater-se ou praticar exercícios de natação", contextualiza a historiadora Joana Gaspar de Freitas, na sua tese de doutoramento sobre o litoral português na época contemporânea. A ideia era mesmo provocar uma reacção brusca no corpo, para estimular a circulação e aumentar a vitalidade de todos os órgãos.

No guia que escreveu em 1876 sobre as praias de Portugal, Ramalho Ortigão dava um conselho às banhistas que não tivessem touca, para preservarem a higiene: "Não lhes convém mergulhar a cabeça. Basta-lhes refrescar repetidamente a fronte e o alto do crânio com a mão molhada durante o tempo que estiverem na água. Molhados os cabelos no mar por qualquer incidente, convirá às senhoras lavá--los em seguida em água doce com um bom sabonete."

Quanto à duração do banho, o escritor recomendava 10 minutos para as pessoas fracas e 20 ou 30 para as bem constituídas e as crianças. Mas havia uma forma de identificar o momento exacto de saída, segundo o autor de As Praias de Portugal: "Ao penetrar na água sente-se um estremecimento, um calafrio geral. (...) Se o banho se prolonga demasiadamente, o primeiro calafrio repete-se. É o sinal intimativo para sair imediatamente".

No livro Nazaré, Memórias de uma Praia de Banhos, agora editado pelo Museu Dr. Joaquim Manso, relata-se que eram muitas vezes as filhas ou mulheres dos banheiros que iam levar toalhas aos banhistas quando os viam sair do mar, seguravam as jóias durante os mergulhos e lavavam e secavam os fatos-de-banho, que até podiam ser alugados.

Após o mergulho no mar, o corpo devia ser "friccionado com um lençol áspero até dar à pele uma cor rosada", recomendou Ramalho Ortigão. Os banhistas refugiavam-se então na barraca, ainda embrulhados na toalha, e colocavam os pés numa gamela com água doce, para tirar o sal e a areia. Logo a seguir vestiam as roupas secas e saíam da praia, normalmente antes das 11h, para voltarem apenas no dia seguinte.

O mergulho da princesa
Cruzando as várias referências a este assunto em livros e trabalhos académicos consultados pela SÁBADO, a primeira notícia de um banho de mar em Portugal foi publicada no dia 18 de Julho de 1783 – faz este ano 232 anos. A Gazeta de Lisboa revelou as idas à praia de Caxias da filha mais nova do Rei D. José, na altura com 36 anos, e do seu marido, que era também seu sobrinho – o príncipe D. José, 15 anos mais novo: "A Senhora D. Maria Francisca Benedicta, Princesa do Brasil, vem há alguns dias de Queluz ao sítio de Caxias tomar aí banhos do mar: o Príncipe seu Augusto Esposo principiou anteontem os mesmos banhos."

Outro sobrinho da princesa que também tomaria banho de mar foi o futuro Rei D. João VI, que se retirou com a corte portuguesa para o Brasil para fugir às Invasões Francesas. Em 1810, foi aconselhado pelo médico a ir ao mar para curar uma infecção numa perna. Mas tinha tanto medo dos caranguejos que exigiu entrar na água dentro de um barril com um pequeno buraco por onde a água passava, molhando-lhe apenas as pernas, segundo um artigo publicado na revista brasileira Aventuras na História. Este banho real realizou-se na praia do Caju, no Rio de Janeiro, cujo areal era um depósito de lixo e barris cheios de excrementos, retirados das casas da cidade e transportados por escravos até à praia.

Mais de seis séculos antes, o primeiro Rei de Portugal ter-se-á banhado na Figueira da Foz. Uma crónica de Frei Bernardo de Brito relata que D. Afonso Henriques andava em Coimbra "tão carregado de triunfos como de más disposições" e um médico sugeriu-lhe um passeio ao longo do Mondego até à foz, que terá produzido melhoras: "Chegou ao mar quase são."

Apesar da saga dos Descobrimentos, os portugueses olharam sempre para o mar com receio. "Os perigos que dali provinham, fossem eles reais ou imaginários – monstros e seres fantásticos, tempestades, piratas, naufrágios, epidemias –, alimentavam a tradição de repulsa pela beira-mar", explica a historiadora Joana Gaspar de Freitas na sua tese.

Já no início do século XIX, graças a uma breve referência nos Anais da Vila da Ericeira em 1803, percebe-se que aquela praia era frequentada pelo bispo de Coimbra e conde de Arganil, D. Francisco Pereira Coutinho. É nesses anos que o hábito de ir ao mar se começa a generalizar entre a aristocracia, como demonstram as Memórias do Marquês de Fronteira e d’Alorna: "No Verão de 1806 tomou a minha família a casa do conde de Lumiares, a S. José de Ribamar [Algés], para irmos aos banhos de mar. (...) Foram contínuos os divertimentos e festas. Todas as tardes íamos merendar ao forte, e os bailes, concertos, ceias, pescas ao candeio e passeios no rio, nas tardes serenas, com bandas de música militar, eram a ocupação dominante dos habitantes daquele sítio."

A partir de 1830, há registo de que algumas famílias ilustres começaram a passar "a estação", entre Agosto e Setembro, nas praias de Espinho, Figueira da Foz e Costa Nova (Aveiro). Na década seguinte, começou a de-senvolver-se o comércio de refrigerantes e de gelados, e depois o de cerveja, todos ligados ao calor e à praia.

Apesar de continuar essencialmente reservada à aristocracia e às elites, a moda dos banhos ia conquistando cada vez mais adeptos, como se comprova pela criação, em 1845, de um serviço de socorros a náufragos no Hospital de S. José, em Lisboa. No livro À Beira-Mar, escrito por Eduardo Sequeira em 1889, numa altura em que toda a gente ainda mergulhava vestida, quem visse alguém em apuros no mar era incentivado a despir-se para evitar que a vítima se agarrasse às suas roupas. E para contrariar o desespero de quem se estava a afogar, o salvador era aconselhado a dar-lhe "murros, pontapés, e mesmo procurando atordoá-lo".

Depois desta cena bizarra, se o banhista conseguisse levar o náufrago a terra, caso este se mostrasse pálido, de olhos desmaiados e lábios descorados, era sinal de que estava com um problema cardíaco. Os primeiros socorros consistiriam então em deitar o afogado na areia com a cabeça mais elevada que o corpo, abrir-lhe a boca e obrigá-lo a beber vinho do Porto, fazê-lo respirar amoníaco e, se isto não o reavivasse, "queimar a pele sobre a região do coração por meio de um ferro de engomar". Em 1876, Ramalho Ortigão recomendava que estas indicações "fossem expostas ao público em cartaz, ensinadas nas escolas e lidas pelos padres à hora da missa, em todas as povoações de pesca e banhos".

O grande impulso à procura das praias deu-se a partir da década de 70 do século XIX. O Rei D. Luís começou a mudar-se para a Cidadela de Cascais durante o Verão, o que foi amplamente publicitado na época e levaria muitas famílias a procurar seguir-lhe o exemplo.

Até à inauguração do caminho de ferro e das 11 estações entre Pedrouços e Cascais, em 1889, a viagem só podia ser feita num barco dos Vapores Lisbonenses, com salão de fumo e cadeiras estofadas, ou num carrão que transportava 36 pessoas – em qualquer dos casos, o percurso demorava quatro horas para cada lado. Além de tornarem as viagens cinco vezes mais rápidas, os caminhos-de-ferro estimularam a descoberta das praias, com a criação de "bilhetes de temporada de banhos de mar e águas minerais", válidos por 60 dias entre Julho e Outubro.

Apesar do impacto decisivo do comboio no aumento do número de banhistas, não havia misturas de classes. À medida que a burguesia foi enchendo as praias da Linha a seguir à Torre de Belém, a aristocracia aproximou-se da família real e concentrou-se em Cascais.

No Porto houve um movimento parecido. Eram precisas cinco a seis horas para ir à Foz tomar banho e voltar até que, em 1872, um transporte sobre carris da Companhia Carril Americano do Porto passou a levar os banhistas em 25 minutos. A alta sociedade nortenha procurou então refúgios mais tranquilos. A Granja, por exemplo, que fica 25 km a sul do Porto, transformou-se literalmente num clube fechado, cuja assembleia de sócios chegou a ser presidida pelo conde de Burnay, o português mais rico na viragem para o século XX.

"Os banhistas da Granja conhecem-se todos, apertam-se todos a mão, frequentam as casas uns dos outros, vivem finalmente em família. É tão agradável isto que custa às vezes a suportar", ironizou Ramalho Ortigão, que classificou a Granja como "a mais graciosa, a mais fresca, a mais asseada das estações de recreio em Portugal".

As famílias muito ricas mandavam construir moradias em frente à praia. Quem não tinha assim tanto dinheiro ficava alojado em hotéis ou alugava uma casa mobilada. Na Foz, por exemplo, entre Junho e Agosto era mais barato. Em Setembro e Outubro a afluência aumentava e os preços subiam. Com ligeiras variações, sucedia o mesmo nas outras praias mais importantes: Póvoa de Varzim, Espinho, Vila do Conde, Leça (frequentada sobretudo pelos ingleses), Figueira da Foz, Nazaré e Ericeira.

As casas de praia eram muitas vezes espaços sem condições comparáveis às residências de Inverno, como notou Tomás de Mello Breyner. O conde de Mafra, bisavô de Miguel Sousa Tavares, criticou nas suas memórias o "snobismo" de quem se sujeitava a passar o Verão em "pardieiros alugados numa viela fedorenta de uma vila à beira-mar, cheia de tripas de peixe e portanto de moscas. E dentro dessas casas sem despejos, com uma cozinha imunda, com loiça desirmanada e rachada, com seis copos para oito pessoas e xícaras sem asas, viviam durante três ou quatro meses do ano famílias habitando no Inverno palácios sumptuosos".

Na Nazaré, construíram-se entre Janeiro e Abril de 1875 mais de 20 prédios para acolher turistas, que tanto chegavam de comboio como de camioneta, e eram esperados pelos banheiros, que ajudavam a transportar as bagagens cheias de roupa e alimentos para toda a estação. Nalguns casos, os visitantes ficavam em casa dos próprios banheiros e estes, para ganharem mais dinheiro, mudavam-se durante o Verão para pequenas cabanas sem condições.

Outra fonte de rendimento nesta vila de pescadores passaram a ser os "banhos quentes": em 1891, foram instalados junto à praia dois estabelecimentos que seriam uma espécie de versão pré-histórica dos modernos spas. A água do mar era puxada através de um cano por cima da areia, durante a maré-cheia, com a ajuda de uma bomba. Segundo o livro Nazaré, Memória de uma Praia de Banhos, ficava num depósito onde era aquecida por uma caldeira, e permitia assim aos pacientes tomar banhos de imersão ou duches, cumprindo a receita do médico, para combater doenças como o reumatismo. Os homens eram auxiliados por um funcionário masculino e as senhoras, evidentemente, tinham a ajuda de uma funcionária.

Os banhos de mar tornaram-se pretexto para uma agitada vida social nas muitas horas livres que restavam aos veraneantes, fora da praia, depois do mergulho matinal.

À tarde, a seguir à sesta, enquanto as senhoras faziam croché, os homens liam o jornal ou passeavam, no passeio público, ao longo do areal ou ainda pelos arredores. Assistir a uma corrida de cavalos (em Matosinhos para os banhistas do Norte), fazer um piquenique ou partir para uma caçada eram outras alternativas para ocupar a tarde.

À noite, podia haver soirées musicais ou dançantes, teatro ou simplesmente encontros no Club, onde os banhistas exibiam os seus fatos e penteados aprumados.

A qualquer hora, jogava-se bilhar, cartas e roleta, que se tornaria um enorme vício, como descreveu Eduardo Sequeira no seu livro publicado em 1889, no capítulo sobre a Póvoa de Varzim: "O jogo, esse, tenta-nos por toda a parte. Nos cafés, nas pequenas lojas, em cada rua, em cada casa, está estabelecida uma roleta, há o monte e todos os conhecidos jogos de azar. De modo que é raro o banhista que não sai dali espoliado, com as finanças perdidas por longos meses, quando não completamente arruinadas."

Os flirts com as espanholas
Outro fenómeno que despontou nessa altura em várias praias foi a atracção dos jovens portugueses pelas mulheres espanholas, que chegavam a Portugal de comboio, sobretudo de Salamanca e Madrid. Ouvia-se espanhol com frequência nas praias mais cosmopolitas de Espinho, Figueira da Foz e Póvoa de Varzim. Em Paço d’Arcos, quando as espanholas iam ao baile, o clube enchia-se de rapazes portugueses. "A valsa toma nessas noites mais velocidade, mais ímpeto, mais arranque", entusiasmava-se Ramalho Ortigão.

Esta fantasia persistia ainda em 1930, quando a revista Terras de Portugal publicou um artigo com este excerto, citado no livro A Construção Social da Praia, da socióloga Helena Machado: "Novos de Portugal, vós todos que tendes 20, 25 anos, lembrais-vos daquele flârte [sic] que tivestes, uma vez, na Figueira, com uma espanhola deliciosa?... Pois todos vós deveis ter, em vosso arquivo, um flârte, na Figueira, com uma espanhola deliciosa... Foi assim, ia jurá-lo, que a maior parte de vós começou conhecendo a Espanha... Uma festa, um beijo, um abraço..."

Também no Jornal da Mulher e do Lar, em 1929, se traçava um filme semelhante, num texto sobre a "jovial e franca camaradagem" entre espanholas "de olhar penetrante" e portugueses com "o ar lânguido dos românticos de olhos sonhadores"...

Pouco antes de 1900, foi de Espanha, sobretudo de Aiamonte, que apareceram os primeiros turistas a frequentar as praias do Algarve, juntamente com algumas famílias algarvias e alentejanas. Mas tratou-se de um desenvolvimento tardio e que incidiu essencialmente na praia da Rocha e em Monte Gordo – eram as únicas duas praias do Algarve na lista das 22 mais frequentadas do País em 1926.

No guia da Sociedade Propaganda de Portugal, de 1918, a praia da Rocha era descrita como "magnífica", com um "clima dulcíssimo" e "paisagens lindas". Previa-se por isso um "futuro promissor" em matéria de turismo, assim que se tornasse mais rápido percorrer a distância que a separava do resto do País. Os portugueses demoraram mais de 100 anos a descobrir as praias do Algarve, mas depois foram muito rápidos a mudar a paisagem.